O jovem e o tempo

O jovem e o tempo

O jovem e o tempo
“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade.”

O jovem despreza o seu pior algoz – o tempo. Sem que o jovem permita, o tempo vai lhe roubando as forças assim como uma ampulheta derrama grão por grão de areia em seu compartimento inferior. Não há como escapar.

 

 O jovem e o tempo
“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade.” 
 
O jovem despreza o seu pior algoz – o tempo. Sem que o jovem permita, o tempo vai lhe roubando as forças assim como uma ampulheta derrama grão por grão de areia em seu compartimento inferior. Não há como escapar. Tudo que um dia esteve em cima, em seu ápice, vai ruir diante do implacável tempo. Inevitavelmente estaremos com todos os nossos grãos na parte de baixo. A mão que virou a ampulheta só faz isso uma vez por pessoa. A quantidade de areia também é individual e imutável. 
 
A areia é composta de grãos. O jovem nem sempre dá importância aos grãos. Parece só enxergar areia. O tempo sabe que grãos são a essência da areia. Os grãos da alegria, da tristeza, dos sonhos, das realizações… Os grãos que nos lembram que eles estão se indo para o abismo do passado, lugar onde só a memória os visualizará. Grão nenhum sobe para o compartimento de cima depois que escorreu para baixo. O jovem observa a massa de areia cair, mas acha que ainda tem muita areia pra descer… 
 
O tempo distrai o jovem com o baile da areia. Ela se mexe dentro de um vidro. O tempo diz que dentro do corpo de vidro de cada um, a areia forma desenhos, passa devagar, que tem poesia nas formas como vai passando. O jovem se distrai. Faz projetos, brinca de colorir os grãos, desperdiça por vezes grande parte da areia por achar que ela é abundante. Quase eterna. O tempo não faz questão de dizer que a areia está passando. O jovem não se dá conta da passagem da sua areia. Grão após grão, o jovem perde seus pedacinhos, sua força, e a areia parece ruir como um castelo na praia diante da chuva. 
 
O jovem tenta negociar com o tempo. Depois de muitos grãos ele tenta pedir mais alguns grãos para compor mais um pouco a sua massa de areia que acha que ainda está em cima. O tempo ri, zomba de como o jovem ignorou tamanha quantidade de grãos, e que agora faz tanto por tão poucos que sobraram. É um verdadeiro massacre de grãos. Parecem deslizar velozmente. O jovem já não tem a mesma destreza de outrora, e se desespera pelo fim de sua areia. Pouco a pouco percebe que o seu algoz é silencioso no começo, mas depois grita horrores diante de cada grão que se vai. Nos últimos grãos o jovem já não reclama do tempo, apenas volta a se lembrar de como eram bonitos alguns grãos… 
 
No final da ampulheta, o tempo é extinto junto com o jovem.
 
Staney Medeiros